a mulher loiríssima e de risada estridente me elogiou o vestido verde e cheio de curvas estreitas. fiz que gostei do agrado forçado, ri sem jeito, dei-lhe um tapinha camarada nas costas. não sei receber elogios dos dentes separados e amarelos contraindo-se e fazendo covinhas cheias de ruga. pela primeira vez observei sua pele vermelha. a passagem dos anos inelutáveis. não há jeito. nem botox cêra enceradeira renew leite-de- rosas. imediatamente penso no porvir - décadas seguinte - e na artrose que me atacará sem aviso, bem no meio de uma dos raros momentos de sexo papaiemamãe. quanta beleza há nisso, penso. não invejarei as lolitas de penugem macia e coxas endurecidas. a experiência me garantirá olhos expressivos e corpo gasto, de tanto uso bom e absurdo. a colheita disso será o respeito com que os meus me arrodearão e me farão perguntas. benevolente, responderei uma-a-uma, esses jovens, meu deus. esse jovens. numa curva encontrarei a inexorável me acenando com um lenço diáfano de adeus. pensarei como tudo foi bonito, como poderia ter aproveitado mais, raspado o tacho até o fim. e não fiz, meu deus. eu, meu deus. por quê?
terça-feira, 17 de novembro de 2009
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
um respiro mais fundo e o segredo escorre pra dentro das narinas rodeadas de pêlos e catarro de antes de ontem, endurecido, seco e velho. pouco importam as canções, as confissões, os subterfúgios. morre-se de qualquer maneira, a terra espera (um alimento). que assim seja. a espera, o que resta. aos olhos o tempo trabalha através do relógio, esse malvado. parada, observo o movimento. há temeridade nos sorrisos, as gengivas não brilham, são opacas. lembro-me da passagem bíblica "haverá choro e ranger de dentes." não há nada de silêncio. o que há é o eco abafado dos pés pisando nos cacos de vidro dispostos nas calçadas. os pés sangram. ninguém vê. farás o que estais fazendo eternamente (farás?). aciono o disparador e meus olhos-obturadores se esbugalham.a imagem fotográfica sai borrada, apenas vultos dançando dentro de um quadrado em três por quatro. um espaço seguro, um porto que protege dos olhares que violam minha saia. a bebida destilada rasga a garganta. sinto saudades dos braços em volta do pescoço, da repartição dos pães com manteiga. a mesa era sujismunda, mas a brisa macia intumescia o amor. um amor farto, abundante, que se amplificava em ondas sonoras. aqueles tempos, um riso, um veludo, uma estrada que levava pra territórios longíquos, pro instante seguinte. a voz baixa e macia não convence meus sentidos. uma navalhada profunda na carne que sangra. mas não posso gritar, não vou gritar,não. há que se garantir a civilidade e o encaixe dentro dos trilhos.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
torço o pescoço pra fora da janela cinza só pra ver o homem de vestes rotas que todos os dias vai e volta - filho pródigo do parque da liberdade. ele chora seu amor perdido, as gazelas de penas encardidas pela sujeira do lago e as notícias da coluna política. não consigo me concentrar. a mulher fala sobre ofícios e burocratices que me fecham os ouvidos. por favor, pare, eu preciso ouvir, preciso mesmo,sabe? hoje não é um bom dia, meus olhos estão descaídos, assim como os ombros. além disso as costelas amanheceram inflamadas e não poder espreguiçar é como não ter aberto os olhos pro dia de hoje.
tilitam os copos cheios de água e café, porque na sala de mesa oval estão discutindo coisas muito importantes e eles precisam estar atentos e hidratados. o homem pára de gritar e eu escuto apenas o barulho do motor dos carros. a duque de caxias esta hora é transitável. as pessoas ficam em pé nas paradas de ônibus, esperando o momento de segurar no aço frio e oleoso. quantas mãos estiveram ali? volto pra mesa e ela continua a falar. escuto distante. aqui é bonito,
hoje é vinte e um, meu dia de disfarçar uma tristeza de lágrimas lacônicas. meu pai, paizinho. o amor. está doendo pra sempre.
os sinos da coração de jesus estão repicando, enquanto as senhorinhas de lenço na cabeça esperam alguma caridade, por glória de deus nosso senhor amém amém amém.
são quatro da tarde no centro de fortaleza. a hora do louvor e do choro santificado.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
as linhas percorrem o contrafluxo dos meus desejos. será curta, a vida. termina no meio da palma da mão, um mal presságio. intuição de medo, de morte descolorindo a risca fina dos lábios. enquanto não chega a hora, o sangue corre grosso, farto, irrigando meu estômago friorento. tomo fôlego profundo a cada respiro. o diafragma persiste no movimento de subida e descida. a cidade dentro de mim. o mundo. o pulso é o sustentáculo das cinco torres desiguais. elas observam complacentes-doloridas o pássaro de ferro rasgando o sol, um arame no abstrato.o dia é turvo. meus olhos estão embotados. descomeço, então, a crer que o mundo é feito de chão. subtraio esse amor para dar mais de volúpia pra ti. suplanto essa raiva dentro das amídalas. é hora de desamassar a saia, os cabelos e cair dentro desta terça-feira. todo dia recomeça em aurora de entendimentos.
domingo, 30 de agosto de 2009
preciosidade da mari
"hoje pensei em te escrever uma carta, uma nota, uma minuta (lembrando que a mãe chamava qualquer documento escrito de minuta. pois eu iria te escrever uma minuta). aí descobri que já não consigo mais te falar do que é mais simples, porque me sinto profundamente banal. por todas as vezes que conversamos, poucas temos um diálogo fresco, sereno e amoroso. talvez por isso, preociosidade, do que é momento raro. na maioria dos dias, estamos a rir (ou de si ou dos outros - passantes, colegas, o corpo, a televisão). também estamos muito envolvidos pelos lençóis, o desejo e o sexo. e, distraídos com o que é às vezes torpe ou animal, como um acidente, a vida me fica leve. aí pensei em te escrever uma carta, e descobri que se não há o que te escrever, vou te esculpir um vaso de cerâmica, cozinhar pra ti um pote de doce, uma compota de fruta, marchetar uma pequena cadeira em miniatura, para que decore o dorso de tua mesa de trabalho. vai assim sem bilhete, porque gesto é palavra, também. e esses serão as de amor."
quem escreveu essa coisa linda foi MARIANA MARQUES, que me acha linda, mora em fortaleza e continuará.
pra lê-la clique aqui: www.brusk.blogspot.com
terça-feira, 11 de agosto de 2009
hoje é terça e fortaleza queimava feito as labaredas do inferno, às nove da manhã. o carro estirou sua língua cansada e exalou a quentura do bafo corpulento e vigoroso. na solon pinheiro o mundo teimou em girar, exigindo de mim mais esforço de atenção. na cancela, meus dentes adormecidos ensaiaram um breve sorriso. lá dentro as paredes eram sustentáculos. as portas. elas, as doces mulheres, me guiaram feito mães desveladas. sou feliz por isso. é o venlaxin, disseram. é nada, eu. é mundo demais que explode. ninguém entendeu. encolheram os ombros e apertaram os lábios: uma contração quase maldosa. seja, pensei. é hora de recolher os papéis que ficaram jogados no chão e bater em retirada. minha casa é o meu abrigo. meu lugar de estar comigo, cismando. os pássaros benfazejos aportam no parapeito da minha janela e acompanham junto comigo a falsa nordestina que chora e canta a falta de sua filhinha perdida. a música é triste e faz lembrar. desligo o botão do mundo. as pálpebras semi-cerradas esperam a hora do descarrilamento, da coisa em rota de colisão. seja.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
às vezes eu tenho medo de que a vida fique ressoando o tempo inteiro aquele som que eu escuto de vez em quando, como uma unha escarlate e afiada riscando uma superfície dura e fria, gerando um som agudo e insuportável. tenho medo de isso ser pra sempre. de o barulho estourar meus tímpanos e eu ficar para sempre surda para as notas
melodiosas que repousam no asfalto aqui de fora e na grama verde lá de casa. estou marcada feito aquele quadro branco reciclado com penas de aves mortas. não. não devo ter medo das interferências. o quadro é vivo, no fim das contas. é testemunha de que somos o húmus que nutre a terra através da qual fomos inaugurados. nada morre, nunca. sempre deixamos nossa herança mais valiosa: o amor, substrato de que a vida é feita.
melodiosas que repousam no asfalto aqui de fora e na grama verde lá de casa. estou marcada feito aquele quadro branco reciclado com penas de aves mortas. não. não devo ter medo das interferências. o quadro é vivo, no fim das contas. é testemunha de que somos o húmus que nutre a terra através da qual fomos inaugurados. nada morre, nunca. sempre deixamos nossa herança mais valiosa: o amor, substrato de que a vida é feita.domingo, 2 de agosto de 2009
o escuro fez suas íris recrudescerem, um esforço vão para enxergar melhor. riscou o fósforo e a luz se fez, embora fugidia. o ar do ambiente entrava por suas narinas peludas, sufocando-o. os pulmões se fecharam para as possibilidades da pureza. glândulas salivares ativadas, a inundação amarelo-gosmenta - um matrimônio selado com a nicotina - inundou os subterrâneos de sua glote mal dormida. nhec - a porta rangeu anos de desdém. passos leves e ensaiados se aproximaram da cama de mogno. nhoc- o estalido súbito da cama fez acender as luzes do mundo. com as mãos inseguras, esquadrinhou cada canto do vazio inesperado. a vida esparramada naquele espaço delimitado, pequeno para os desejos que habitavam seus versos mal desenhados. não havia nada ali, não havia nada ali, gritaram seus olhos esbugalhados, as veias latejando a decepção. a chama do fósforo era cada vez mais arisca. os dedos anestesiados queimaram ao contato com o fogo. a escuridão fincou pés, mas ele decidiu que era ali que deveria estar-se para todo o sempre, com as pernas dobradas e a cabeça nos joelhos, encostado no canto esquerdo daquela parede.
terça-feira, 28 de julho de 2009
não me olhe desta maneira, com olhos derramados. você morde os lábios como quem se auto-mutila, como quem carrega uma culpa imensa que não cabe em seus ombros. não adianta. não posso carregar isso por você. a cada um, sua cruz e seus espinhos, já dizia a voz invisível do grande sábio. sim, eu te ajudo. não é isso que faço o tempo inteiro? te afago os cabelos enquanto você fuma compulsivamente seus malboros vermelhos, tentando se esconder por detrás da fachada cansativa do intelectual destrutivo. amanhã é quinta-feira, dia de estar no meio daquele burburinho de vozes que não se entrelaçam porque no fundo cada um está muito preocupado com suas deprimentes derrotas pequeno-burguesas. observo compassivamente cada um, sobretudo você. braços cruzados, a mão indo e vindo enquanto sopra com revolta, através da fumaça, uma falta de amor boba e sem sentido. sim, porque o amor está aí, bem acima de sua cabeça. ele também dá voltas e voltas em torno do seu corpo. não é estacionário, o amor. ele se movimenta bem à sua frente,mas você está cego. sua vista não ultrapassa o muro do seu umbigo limpo e bem-cheiroso, afinal é mais fácil tocar uma vida programada dentro do circuito que você construiu. é tudo tão delimitado, não? você não ultrapassa a linha dos seus desejos. não subverte a ordem das horas. no fundo tanto faz que seja segunda terça quarta quinta sexta, ou mesmo sábado e domingo. sua tabela funciona muito bem. as rosas estão lá fora, reverberando seu aroma adocicado. a lua está ao alcance da sua mão, mas você finge que nada disso existe. seu mundo cabe numa cartela de antidepressivos, os paliativos para seus incômodos da alma. não amealhe seus sentimentos, eu te peço de joelhos. te imploro. me dá a tua mão. estou aqui, inteira. poderíamos,juntos, secar as lágrimas do teu mundo e caminharmos às quatro da madrugada pelas ruas catando pedregulhos e preenchendo o oco da noite com nossas risadas frívolas. que importa que as bombas explodam? estou aqui pra, contigo, recolher os estilhaços. só assim seremos finalmente abençoados.
no princípio éramos todos nós de olhos fechados e dedos entrelaçados. os perdões traduziam-se em cirandas vivazes e conciliadoras. nossos dentes pequenos sorriam, denunciando uma infância de molares imaturos e felizes. as gengivas rebrilhavam sempre que a luz as tocava. feito espelho, devolviam ao mundo as cores necessárias para que a vida continuasse viva e respirante daquela alegria louca que a gente sentia. púnhamos o sol pra dormir com nossas risadas melodiosas e a noite nos encontrava de pés descalços e as roupas cheias de nódoas estelares.
sim.
no princípio era amor.
e agora também.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
quando eu era pequena, lá pelos oito anos, eu tinha um hábito que era muito comum entre as menininhas da época: eu colecionava papéis-de-carta. guardava a todos numa pasta verde. eram tantos, tão vastos coloridos e cheirosos. cada um tinha um nome, uma identidade. eu passava o dia inteiro cuidando deles, trocando de lugar, cheirando, recolocando no lugar anterior. ninguém podia mexer neles. é como se fossem um templo onde eu depositava os meus desejos mais recônditos. quem sabe um espaço de fuga porque eu não cabia muito bem nas roupas daquele mundo que se apresentava a mim. eu era calada e tímida. minhas amigas, falastronas e safas, faziam até ranking pra classificar as mais belas e charmosas garotinhas do colégio dom lustosa salesiano, um lugar em que os padrecos simpáticos passeavam entre bromélias, tulipas e copos-de-leite, nos abençoando sempre que íamos confessar algum pecadilhos burlescos e pueris. o fato é que aquela pasta me acompanhava todos os dias, o tempo inteiro. um dia, indo ao banheiro da escola, eu a deixei em cima da pia. quando voltei vi apenas a pia vazia, sem a minha pasta verde. fiquei muito tempo olhando fixamente para aquele lugar. eu não sabia, mas inconscientemente estava pensando em quem poderia ter-me furtado. quem teria sido capaz daquele desatino, daquela malvadeza? eu não merecia, pelo menos era isso que eu pensava. mas não chorei. passei muitos dias feito um zumbi, desarmada desalentada abandonada. não sabia o que fazer com as mãos. a pasta e meus papéis-de-carta me protegiam das armadilhas daquele mundo. eu estava muito dentro dele, do mundo que estava se revirando dentro de mim. logo ele ia sair. eu ia parí-lo, ao mundo, e ser mãe das coisas que hoje me pertencem, mas que não são minhas de fato - soltas no mundo, o vento levando -. comecei, então, a refletir sobre a forma como eu lidava com meus papéis. e comecei a maculá-los. percebi que eles gostavam de serem invadidos, violados. e meus dedos cantavam as letras do meu desassossego, abrindo meus túneis de encantamento e umedecendo meu coração. forjamos uma relação de pertencimento, mas não de posse-presa, algemada. era um estar juntos com asas de passarinho. um amálgama de linhas diáfanas, embora fortes. revolvo na memória esse episódios e sei que apesar da fixação atual pelas letras cibernéticas, meus papéis continuam aqui, guardados, se remexendo e percorrendo meu sangue, minhas veias, fazendo de mim uma pessoa que se inaugura a si a todo momento, igualzinho àquela época, mil novecentos e oitenta e nove. um ano doce e com cheiro bom.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Uma réstia de sol invade e bronzeia as minhas córneas famintas. Preciso sair deste sótão empoeirado e carcomido. Sim, eu preciso sair, emergir-me de mim e alimentar-me do ar sempre fresco e renovado deste céu borbulhante que me cerca. A porta está aberta.É preciso coragem para atravessá-la. É preciso pés para atravessá-la. É preciso mãos para atravessá-la. É preciso olhos para atravessá-la. É preciso vísceras para atravessá-la. É preciso coração para atravessá-la. Mãos,pés olhos, vísceras. Coração. Uma leveza em cada passo gesticulado, feito gota- orvalho da madrugada. A cada passo o amor vai explodindo e renascendo dentro de mim. Start walking. It's my turn.
minha cabeça não pára de pensar, gente. preciso praticar meditação, pra não acumular tantas coisas aqui dentro. eu associo tudo a tudo. eu sei, isso parece confuso e de fato é. acho que só eu entendo as curvas que meus neurônios dão. mas vou tentar ser didática. por exemplo, ontem à noite eu estava conversando com uma amiga no dragão do mar e vi que vários carros de polícia e ambulâncias passaram, rápidas e urgentes. daí pensei que a energia da cidade não estava boa ontem. depois eu pensei no quanto estamos apartados da cidade. daí pensei que estamos apartados também das pessoas da cidade. pior: pensei que estamos apartados de nós mesmos. liguei isso ao nosso desafio na secretaria de direitos humanos, às tarefas que temos de cumprir com leveza, embora as pedras sejam pesadas, como diz o Italo Calvino. a cidade precisa estar dentro das pessoas. as pessoas precisam estar dentro da cidade. as pessoas precisam estar dentro das pessoas. entendem? pensei, ainda, que eu estar assim como estou nesses últimos tempos tem a ver com todos o processos que se deflagram no meu cotidiano, mas que estão completamente interligados com a lógica massacrante da sociedade contemporânea. não sei se alguém vai me ouvir, me entender. enfim. seja. não estou me lamentando. pelo contrário. estou feliz por que ao meu lado existem pessoas que me ensinam a encarar tudo isto a partir de uma outra ótica: a da paciência e da tolerância. mudando de assunto, mas nem tanto: preciso voltar pra yoga. ah! fiquei noiva,gente. de aliança e tudo. estou me sentindo super phina, a noivinha do ano. é tão bom, isso. estamos pensando na reforma da nossa casa e na nossa lua-de-mel pela américa latina. vai ser um arraso fazer os asanas em pleno macchu picchu (é assim que escreve?) e rasgar a nota em palermo (buenos aires). enfim. falei muito, estou com fome. o gigio vai trazer alguma junkie food porque estou morta nas calças, com uma preguiça doida de me levantar daqui. beijos em todos e todas.
terça-feira, 30 de junho de 2009
o coração é uma ponte entre o possível e o inalcansável, ele me disse um dia enquanto, na cama, preparávamos um alimento para o nosso amor. fiquei com medo das agruras que nos cercariam, já que à ponte falta a estabilidade de que nossos pés supõem necessitar para um caminhar melodioso. agarrei seus cabelos, meus olhos estufados, desesperados. eu não queria, percorrendo uma ponta e outra, o risco da queda. eu era rígida, cercada de certezas mofadas sobre meus afetos. com ele fui descobrindo, perdida em seus cabelos negros e ondulados, que, apesar de não saber, eu caía sempre, todos os dias e que isso não era prejuízo grande. era, antes, um aprender a segurar-se na ponta dos dedos. eu disse que não, ele estava enganado. como eu poderia cair se estava sempre alerta e ereta? ele sorriu, doce e complacente ao mesmo tempo. os dentes brancos enfileirados me confidenciando que no fundo eu era uma pessoa ingênua, que eu havia deixado de sentir as pancadas do mundo, que estava anestesiada e não sentia as dores necessárias de quem cai no abismo das incertezas amorosas. percorre a mim, ele disse. eu sou tua ponte, tua montanha cheia de desfiladeiros. estaremos mais próximos e estreitos dentro um do outro cada vez que você cair de mim. olhei pra ele. queria me insurgir. era tudo medo. e o medo é ilusório. respirei fundo, sorri e mergulhei o mais profundo que os meus pulmões permitiam.
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